HOUSE OF MACBETH

Frank UnderWood House of cards

House of Cards é a ganância em seu estado puro. Não existem heróis. Todos têm fome e apenas os mais espertos comem. E é isso que nos fascina. Não!? Duvido que você nunca parou de zapear ao chegar no Globo Repórter só para ver o Guepardo cravar os dentes no lombo do Antílope. Nem que seja para assistir o bando de chifrudos cornearem o predador. Nunca?

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Conta comigo

Stand by me
© 1986 – Columbia Pictures

Quatro amigos. Não, não são os Mullets! …Opa! Só um minuto! Antes de começar a ler, dá o play na playlist preparada por alguma alma caridosa e entre no clima do filme que, por sinal, faz toda a diferença. Pode até escolher: Spotify ou Youtube.

Eu admito: este filme já passou mil vezes na Sessão da Tarde. Tá, mas quem disse que ele é ruim? Na verdade é muito bom! Aposto que você já se pegou colocando a mão no trilho pra sentir se o trem vinha… Ok, talvez não, mas com certeza já fugiu do cachorro de algum vizinho maluco. Também não? Certo, eu me identifico muito com a história, mas confia em mim, vou provar que vale a pena gastar 1h28 da sua vida.

Castle Rock, uma cidade com 1.281 pessoas em 1959. Aí você pensa: um filme de 1986 que conta uma história mais antiga ainda e que se passa numa cidade minúscula, com certeza, deve ser lento e chato. Tudo bem, ele tem o ritmo dos anos 80, mas chato não!

Quatro amigos com seus 12 anos vão em busca do cadáver de um garoto da mesma idade. Amigos que sabem que estão vivendo os melhores anos de suas vidas, não por serem crianças, mas por serem livres. A sensação de liberdade não vem da ignorância da consequência dos atos, mas sim da amizade. É possível andar 50 km, passar fome, sentir medo, fugir, apanhar, mas mesmo assim continuar amigos.

Stand by Me na linha do trem
© 1986 – Columbia Pictures

Um filme que consegue, na mesma cena, te levar a refletir o que é o pateta e como é cruel a desigualdade social, merece o meu respeito. O desejo de ser famoso também é mencionado, e faz pensar: — A que custo? Este ano tivemos vários exemplos de que a fama pode ser ingrata para quem a quer a qualquer preço. Zeca Camargo confundindo o nome do Cristiano Araújo, a Jéssica que até agora não sei se acabou, a ida da Fabíola ao motel fazer as unhas. São histórias engraçadas, mas que trazem a reflexão: — É preciso saber de tudo? Até onde eu preciso saber da vida alheia? Uma família destruída por memes. Uma garota batendo na outra. Um corpo sendo cortado no necrotério. Até onde vai o meu sadismo?

Satand by me, filme baseado no conto The body de Stephen King, acima de tudo, fala sobre mudanças. Como as mudanças são importantes e inevitáveis em nossas vidas, como a amizade pode ser sincera como as amizades que temos aos 12 anos. Ele traz a mensagem de que é preciso viajar e buscar novas aventuras para, quando voltarmos ao nosso Castelo de Rocha, sentirmos que não somos mais os mesmos.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

 

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Black Mirror

Black Mirror
Foto: divulgação Channel 4

O episódio “15 milhões de méritos” da fantástica série Black Mirror é um soco na cara e um sopro de alívio. Uma porrada bem dada nas milhares, milhões de pessoas que vêm se comportando como avatares (como os avatares da plateia do reality show de que trata o episódio) e um sopro de esperança para os que não se enquadram bem nessa nossa pintura social pós anos 2000. Em 2000 por acaso viramos o século assistindo ao nosso primeiro Big Brother Brasil (pra mim, um choque inacreditável que veio com a pergunta “onde chegamos?”) e nesse episódio o suposto reality show de artistas é só um pano de fundo para uma crítica completa e detalhada do nosso modus vivendi atual que usa o tempo todo a metalinguagem.

O ator negro acorda desligando o despertador – aqui um galo virtual- e se dirije para sua bicicleta onde pedalará o dia todo em busca de quilometragem que se traduz em méritos – os 15 milhões do título. Esses méritos (o nosso suado salário) são usados para comprar sua (a nossa) comida industrializada e até para pagar “pedágio” caso não veja os comerciais sexuais que passam sem parar em seu cubículo onde dorme. Ele pedala sempre ao lado de um idiota que humilha constantemente a faxineira (uma geração inteira que tende a desprezar classes baixas e “anônimos”) e que ri de imbecilidades que passam na TV (assim como a nossa) em frente a bicicleta que ele também pedala.

A ideia de que se passa ali um reality show onde as pessoas acumulam créditos pedalando para poderem participar de uma apresentação onde cantarão ou exibirão dotes artísticos é só uma fachada.

Eles representam nós mesmos. Que estamos condenados a pedalar para comprar “adereços virtuais e coisas que não precisamos e nem podemos ver” (como diz o protagonista). A apresentação para ser um HOT SHOT (nome do suposto reality) é também a nossa tentativa de passagem para o lado do sucesso na vida: onde seremos artistas, jogadores, famosos ou “ricos”. Como indaga um dos jurados do reality a um competidor “De onde você acha que vem a luz dos holofotes em você? Da energia das pessoas que estão pedalando”. Nós sustentamos todo o circo onde vivemos. Nós pedalamos (trabalhamos) esperando a nossa chance de “brilhar” enquanto sustentamos um mundo onde artistas, famosos e bem sucedidos levam uma vida de likes e aplausos e “vivem” a verdadeira vida.

CUIDADO SPOILER. Quando o protagonista finalmente sobe ao palco (após uma desilusão amorosa que traz também uma mordaz crítica amor versus dinheiro) , empunhando um pedaço de vidro estilhaçado na própria garganta e vomita tudo o que queria dizer aos jurados eis que o clímax se dá. Os três jurados (que representam a mídia televisiva, jornalística, virtual) usam o discurso/desabafo e fazem do protagonista/herói um de seus eleitos para um programa onde ele discursará semanalmente: uma clara alegoria a espécie política em que (uns , claro) começam dizendo verdades e acabam se vendendo ao sistema. E assim sucede ao protagonista: ele se entrega ao sistema. Agora não precisa trabalhar, ops, pedalar, e já não tem um galo virtual para acordá-lo e sim, um quarto branco, espaçoso, com uma vista para uma natureza real, mais ainda assim, nitidamente cercado por grades na janela.

Black Mirror
Foto: divulgação Channel 4

P.S: A sacada de que todos os participantes do reality usam roupa cinza na “vida real”, nos remete a Matrix. O “uniforme” representa a nossa essência real que é igual para todos. Mas no episódio todos são representados por avatares (nosso papel social) e esses, sim, se diferenciam pelas roupas, acessórios que eles “pedalam” arduamente para conseguir. A máscara que usamos para enfrentar e julgar o mundo nunca é a nossa. Estamos sempre vestindo personagens que nos custam um certo preço e que pedalamos para manter tal padrão escolhido. E tendemos sempre a querer elevar de padrão, comprarmos mais adereços, pedalarmos mais, em busca de um dia sermos também um Hot Shot aclamado pela sociedade em nossa eterna necessidade de aceitação.

 

Leonardo Campos

Leonardo Campos

Além de cinéfilo, atua há mais de dez anos como redator e diretor de criação no mercado publicitário do litoral mineiro (Juiz de Fora).

 

 

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