O Segredo dos Seus Olhos

 

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Foto Divulgação

Não tive coragem de assistir ao remake hollywoodiano escrito por Billy Ray (Secret in Their Eyes). Já pelo trailer pude perceber que não dá. Acredito que se eu o assistir o encanto se perderá. Trocar a ditadura argentina pelo 11 de setembro? Oficiais de justiça dos anos 1970 por agentes do FBI dos anos 2000? Para mim isso não faz nenhum sentido. Querem contextualizar e tornar a leitura mais fácil? Faz o seguinte, dubla o filme. Aqui no Brasil já usamos a dublagem há tanto tempo. É muito mais barato e ainda dá emprego.

Imagina se resolvêssemos refazer todo sucesso mundial. Mentaliza o enredo: Tony Ramos no lugar do Ricardo Darín. O garoto Freeboi seria um detetive no Morro da Macaca. Pedro Cardoso (no estilo Agostinho Carrara) seria o Sandoval seu amigo de trabalho e frequentador do buteco/pastelaria Beiçola’s Bar. Como Irene teríamos Paola Oliveira, isso mesmo, aquela das cortinas. Os produtores ficariam Felizes para Sempre em deixá-la seminua mais uma vez. Para o Gomez, claro, Wagner Moura. Seu sucesso mundial ajudaria nas vendas. Não combina, né? Pois é, é isso que senti quando assisti ao trailer dos americanos. Nada contra os atores de Hollywood ou do Brasil, entretanto, não casa. Era mais honesto fazer outro filme.

Enfim, este texto já perdeu tempo demais com a refilmagem. Falemos do original. Antes de tudo é preciso dizer. Pablo Sandoval (interpretado por Guillermo Francella) é muito bom! Sim, é possível colocar simpatia, humildade, sabedoria, humor e coragem em um só personagem. Sem nenhum pingo de descrença você é capaz de dizer: — Acredito que exista um Sandoval por aí. Ouso a compará-lo ao grande Quixote. Um caçador de gigantes que no fundo sabe da existência dos moinhos, mas entende sua essência e não a nega. Ou seja, você já deve ter percebido que o frequentador do Robertinho, Senhor Pablo, é meu personagem preferido. Ricardo Darín como Benjamín Esposito e Soledad Villamil como Irene Hastings cumpriram seu papel sabiamente.

Gulliermo Francella
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El Secreto de Sus Ojos não é um filme policial comum que no início acontece um crime e em seguida o detetive precisa correr como o coelho da Alice para pegar o culpado. A trama é complexa. A cada flashback nos é revelado um pouco mais dos personagens. O crime inicial percorre toda a história e nos traz várias outras questões. Amor, alcoolismo, amizade, justiça, dor, paixão… Talvez este último seja a espinha do enredo. Nossas paixões são mutáveis? Às vezes, ingenuamente, achamos que sim. Os gregos diziam que nosso destino é tecido por três Moiras. Acho que elas não perdem tempo tecendo toda a nossa vida. Para agilizar o processo, já que tem muito destino pra costurar, elas tecem apenas a paixão de cada um. Esse tecido não dá para trocar, cortar ou refazer. Temos apenas que aceitá-lo. E a partir dele, deste tecido irretocável, sua vida será regida.

Não concordo mas entendo por que não falar de ditadura na versão Secret in Their Eyes. Os EUA nunca viveram uma ditadura. Será que eles entenderiam o que é essa ferida? Pensou o roteirista: — Poxa, então vamos falar do 11 de setembro, essa não cicatrizou para os norte-americanos! — Os próprios argentinos reconhecem que nunca esquecerão o que aconteceu lá. Quem sabe fosse melhor, não digo esquecer, mas não sofrer tanto. Assim como nosso corpo faz quando passamos por um trauma. A dor é tanta que a única saída que ele encontra é esconder aquela memória. Não que seja covardia ou falta de compaixão, no entanto, é preciso seguir em frente, e o filme aborda isso divinamente.

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Juan José Campanella (diretor e escritor) e Eduardo Sascheri (escritor) nos presenteiam com um lindo trabalho, baseado no livro La Pregunta de Sus Ojos, do próprio Eduardo Sacheri. Em uma das cenas consegui me ver entrando na casa da minha família no interior de Minas, algumas paredes manchadas pelo tempo, a decoração dos anos 1970, a vizinhança tranquila, árvores dos dois lados da rua, um paraíso. Este prazer de se reencontrar nos filmes latinos é algo indescritível. É como viajar durante muitos dias e ao retornar a terra natal a cidade parece sorrir de volta. O poeta maior, Carlos Drummond, numa entrevista a Leda Nagle, explica sua recusa em voltar para sua terra natal. Aos 78 anos, retornar a Itabira seria como voltar para um passado morto, seus amigos não estariam mais ali, sua família já se foi. Assistir ao filme de Campanella é como bem diz o poeta itabirano: “…Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”

O segredo está nos olhos, mas é preciso ter atenção. Pode ser apenas um lampejo, algo bem corriqueiro. No entanto, pode ser admirado por qualquer um. Culpa, dor, paixão, amor… Basta olhar com cuidado àquela velha fotografia na parede.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

4 comentários em “O Segredo dos Seus Olhos

  1. O original, é um dos melhores filmes que já vi. Esse remake deve ser pra não deixar pistas de quem foi o principal patrocinador das ditaduras pelo mundo…

  2. Um dos filmes da minha vida. Acho tao bem construído, com atores sensacionais. Mescla tantas coisas em uma história só, e tudo com um visual fantástico.

    E cuidado que é capaz de fazerem essa versão brasileira, hein?! rsrsrs

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