Contos

Estreia

Franciane Lúcia

A penumbra iluminada pela fraca luz amarelada dos spots. Sim, esse foi parte do cenário que se via na coxia do teatro.
— Eu vou pra lá.
— Eu também quero ir.
E lá estavam as duas protagonistas. Testemunhas importantes do cenário mal iluminado.
— Será que vem alguém?
— Talvez sim. Hoje é a estreia.
— Espera aí… Vem vindo alguém.
Pausa.

As vozes ainda estavam longe. Não dava para distinguir o diálogo nas falas abafadas. Barulhos de passos foram ouvidos. Surgem duas figuras suspeitas que furtivamente sentam-se. Apesar do clima tenso, agora foi possível ouvir trechos da conversa…
— Você está com frio?
— Não.
— Mas você está tremendo!
— Estou?
— Me dá sua mão…
E foi nesse instante que a luz iluminou parcialmente o rosto de um jovem casal. Tinha de ser eles! As fisionomias eram as mesmas. Tudo se encaixava…
Repassando todos os passos foi possível entender facilmente o encontro daquelas vidas. Vidas enlaçadas pelo amor e testemunhadas, em seu início, por duas cadeiras.

Conto Estreia

Fotografia: Franciane Lúcia | Peça: O Canto do Cisne – Grupo Divulgação

Publicado no Caderno Literário Encontrare Nº 5

 

 


 

 

Ode à alegria

Douglas Zimmermann

Ode à Alegria

O céu bem azul como a bacia de sua mãe lavar os pratos, a terra era vermelha e batida como deveria ser. Havia somente os pássaros por perto, enfileirados nos fios, esperando o sol esquentar as asas. O pequeno garoto se admirava com tanta beleza, na verdade não sabia muito bem o que era aquele sentimento, sabia que lhe preenchia todo e começava pelo peito.

O azul parecia tão grande, era esse talvez o motivo de sua felicidade, e quanto maior parecesse mais contente ficava o menino. Era uma cor pura, sem nenhuma nuvem atrapalhando sua inocência de céu tranquilo. Também era bom ver o encontro do teto gigante com o verde profano. Milhares de tons em um só arbusto sustentavam a parede azulada. Poder sentir isso tudo de longe abarrotava o pequeno garoto de contentamento.
Eram duas árvores enormes com folhas bem miúdas. Ficavam mais adiante, logo depois dos canários “esperadores” de sol. O garoto sentado em uma pedra improvisada as olhava curioso. Seu irmão mais velho disse que as árvores eram mágicas e possuíam um segredo. O problema maior do irmão primogênito era a mentira, porém daquela vez jurou verdade ao contar.
Ico chegou e a dúvida já era outra:
— De quê vamos brincar hoje?
— Bolinha de Gude?
— Tô com preguiça de ir em casa.
— Bete?
— Só tem nós dois, não vai dar.
— Já sei, Gangorra!
— Não temos Gangorra.
— Mas temos árvore e meu pai tem uma corda.
— Então tá.

Leo subiu na árvore para amarrar a corda enquanto Frederico improvisava o assento. Ventava frio e os galhos aceitavam balançando de um lado para o outro junto com os garotos.
O colega o empurrava cada vez mais forte. Era bom sentir o vento no rosto, a vontade era de se soltar e continuar cada vez mais alto, até poder encostar as mãos no céu. Olhou para trás pra tentar ver a distância dele para com o chão. Fechou os olhos e voou do balanço. A queda foi bem alta.
Ficou desacordado por alguns minutos e a primeira coisa que viu, depois de abrir os olhos, foi uma ninhada de cães um pouco depois da árvore à esquerda. Ainda meio zonzo lembrou da história que sua mãe contou e, claro, a colocou em prática. Bateu palmas e cinco cães fugiram para trás de um caixote. Dois vieram cheirar e apenas um parou e olhou atentamente. Estava escolhido. Aquele seria o seu amigo guardião, um companheiro para suas aventuras.
Ele era todo pretinho e seu corpo brilhava quando o sol o encontrava. A única coisa que incomodava o menino era uma certa melancolia no olhar do cão. O garoto procurou Ico para mostrar o novo amigo, mas ele havia sumido. Ouviu sua mãe gritar:
— Levanta, vão brincar em pé?
— O quê, mãe?
— Levanta, vem tomar o café?
Ele acorda atordoado e cai da cama. Já estava na hora de levantar. Minutos depois, o sonho começava a fugir de sua memória.

Publicado no Caderno Literário Encontrare Nº 5

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