O iluminado – Likes, Candy Crush e Chacretes. Impossível não procrastinar

O iluminado

 

Além da identificação que tenho com a calvície do Jack Nickson, O Iluminado me chama atenção por tocar num tema que me instiga: a solidão. Às vezes desejamos ficar sozinhos. Na verdade, precisamos de um tempo para refletirmos sobre nossa vida. Ainda mais nessa correria de redes sociais, trabalho e estudo que nós, os ditos humanos urbanos, nos encontramos. Contudo, até que ponto somos capazes de aguentar a solidão? Ora, somos seres sociais! (Em essência pelo menos). Outro dia, nas minhas buscas por quadrinhos em bancas de jornal, eu encontrei o Francês, um fantástico personagem perdido na HQ do grande Tex Willer (O herói/“semideus”/ranger/cowboy americano). O Francês se dizia enojado pela humanidade e decidiu viver sozinho na floresta. Caçava sua própria comida, fugia dos inimigos, vivia numa caverna e nunca dava like nas fotos dos amigos.

Um problema que o Francês não enfrentava, mas que eu e o Jack conhecemos bem é a tal da Procrastinação. Para o personagem do Nickson a tentação apareceu de várias maneiras e resistir a elas é algo extremamente difícil. Como manter o foco se o mundo está te oferecendo o Candy Crush? Doces balinhas que se colocadas na ordem certa te darão uma linda explosão de recompensa chamada Sweet ou Delicius. Como recusar ao Delicius que a vida te oferece e encarar amargo labor do dia a dia?

 

O iluminado Jack

 

Jack é maluco ou não? São fantasmas ou apenas imaginação? Tudo bem que a esposa interpretada, perfeitamente, diga-se de ligeirinho, pela Shelley Duvall nos leva a crer que algo de satânico está rondando naquele hotel. No entanto, nunca saberemos. Na verdade, nem devemos saber. Existem coisas que precisam ser omitidas para o nosso bem e o da boa história. Assim como o sentido da vida, o verdadeiro significado dos olhos de ressaca de Capitolina Santiago ou as pirâmides do Egito. Não devemos saber de tudo. Um pouco de mistério faz bem à sedução. Fica a dica para as Chacretes turbinadas contemporâneas.

Citei Machado de Assis e por falar em Machado (“ótimo gancho”), nada mais aterrorizante que machadadas numa porta. Você tenta imaginar como se defender de um golpe desse e logo conclui que não tem jeito. Parar com a mão não dá, usar uma cadeira, em dois golpes a cadeira se foi. Pensa em fugir, mas se for para a neve a morte também te espera por lá. Acredito que esse seja um dos pontos mais fortes do filme. The Shining não entrega tudo. Ele te deixa imaginar, e nada mais aterrorizante que nossa imaginação. Antes de lançar o filme, ainda no trailer, Stanley Kubrick produz um de arrepiar com apenas uma imagem estática do salão do hotel sendo inundado por uma pororoca de sangue. Pronto, acabou o vídeo. Claro que você imagina o pior. Unido a isso a nossa curiosidade pelo mórbido, público garantido.

 

O iluminado Jack Party

 

O iluminado é uma obra aberta. Interpretações diversas estão disponíveis. Basta escolher na prateleira. Apesar de Stephen King não ter aprovado a adaptação do Kubrick, o filme foi sucesso de público e mais a frente, também sucesso de crítica, considerado hoje segundo melhor filme do gênero, perdendo a medalha de ouro apenas para Psicose. Assim como Psicose, The Shining não é um filme comum de terror e merece ser assistido até mesmo por quem teme este gênero.

 

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

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