HOUSE OF MACBETH

Frank UnderWood House of cards

House of Cards é a ganância em seu estado puro. Não existem heróis. Todos têm fome e apenas os mais espertos comem. E é isso que nos fascina. Não!? Duvido que você nunca parou de zapear ao chegar no Globo Repórter só para ver o Guepardo cravar os dentes no lombo do Antílope. Nem que seja para assistir o bando de chifrudos cornearem o predador. Nunca?

Quando montamos um castelo de cartas, precisamos de paciência, habilidade e sorte para tudo se manter de pé. Uma carta mal colocada e o baralho volta a ser apenas um montinho. A série original da Netflix, não poderia ter um nome melhor. Apesar da história se passar nos EUA, a primeira versão é inglesa. Contudo, encaixou como uma luva na cultura dos norte-americanos. Há quem diga que uma versão brasileira talvez fosse tão interessante quanto. Fica aí a dica para os produtores. Quem sabe não fazem uma em 2018. Acho uma boa data para a estreia. Rodrigo Santoro no lugar de Kevin Space? E da Robin Wright (Claire), quem seria? …É melhor deixar esse assunto amadurecer.

Quer saber se está gostando da história? Torcer para o vilão é um bom indicador. Dificilmente você torcerá pelo Vader, Krueger ou Nosferatu. Não que as histórias deles sejam ruins, pelo contrário, citei os mais tops da cultura pop. Entretanto, quando você, mesmo secretamente, deseja que o pilantra se dê bem é certo que o seu envolvimento com a história é forte. O pacto foi feito. Mefistófeles já está com seu contrato assinado esperando sua alma. No final de cada temporada você estará ansioso pela próxima. Entregará de bom grado horas e horas da sua vida por uma gota a mais de trama. Esse é o sentimento que temos ao assistirmos o casal Underwood guiando os episódios.

Macbeth é a história do nobre que juntamente com sua esposa desejou se tornar o rei da Escócia. Todos que atravessaram seu caminho até o trono foram mortos. House of Cards bebe da obra de William Shakespeare de forma brilhante. Frank Underwood, a versão moderna de Macbeth, em momento algum se preocupa com os meios. Tudo é justificável. “O caminho até o poder é pavimentado de hipocrisia”, diz Frank. Vivemos isso na prática, claro, em menor escala. Quando seu amigo tatua o retrato do filho na bochecha e te pergunta se ficou bom. Você olha para o desenho que mais parece uma sorridente batata cabeluda e diz: — Ficou lindo! — Não dá para ser sincero sempre. Às vezes, para sobreviver num grupo é preciso usar o bendito do eufemismo.

Se me permite, e claro que permitirá, pois já chegou até aqui, ouso dizer que Frank tem a fome pelo poder de Macbeth e o tutano de Iago (Otelo) para manipular as pessoas. Ao quebrar a quarta parede (usado com maestria na 4ª temporada) somos evolvidos ainda mais pelo cretino. Lembrando que essa é outra água bebida de William: a tal da quarta parede.

Claire underwood (Robin Wright) - sangue nas mãos

É preciso falar de Claire Underwood. Também conhecida nos forrós da vida como Lady Macbeth. Sua sede pelo poder, assim como a do marido, é insaciável. No entanto, é possível cogitar que a força seja maior. Assim como na peça de Shakespeare, Claire é quem, por diversas vezes, não permite que Frank esmoreça. Com Lady Underwook não tem quarta parede. Para superar essa “desvantagem” e nos cativar ela precisou trabalhar bastante. A atriz Robin (que também interpretou a namorada do Forrest Gump) deu conta do recado e garantiu uma torcida grande para esta 4ª temporada.

Se depois de todo esse texto, você me vem com a audácia de se questionar:  — Por que eu vou ver essa série? O noticiário brasileiro está muito mais emocionante: depoimento coercitivo, impeachment, propina, grampos, golpe de estado, volta da ditadura, guerra civil, etc… Pense na frase “…ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive”. Iago planta a ideia na cabeça de Otelo que acaba perdendo-a. Vivemos tempos difíceis. É preciso ter cautela, não faltarão Iagos, Franks e Claires para nos “guiarem” pelo caminho até o poder. Ou seja, aquele pavimentado de hipocrisia. A arte é sempre uma boa opção para entender melhor a nossa vida.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Além de gostar de escrever, Doug é pai, ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nessa ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

Um comentário em “HOUSE OF MACBETH

  1. Bom o seu texto sobre “House of Cards”.

    Vejo que você é um cinéfilo perdido nesta nossa aldeia onde filme bom nos cinemas é coisa rara .

    O jeito é ir saciando a vontade de bom cinema nas poucas locadoras que restam, garimpar alguma coisa no Netflix ou, como eu, dar umas escapadas no Rio ou São Paulo para compensar o entediante marasmo daqui.

    Parabens pelo blog e boa sorte.

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