Die Welle

A onda

Para os leigos em alemão (como eu), o título significa A ONDA.

Por que falar deste filme? Filme alemão de 2008, inspirado em um livro de mesmo nome. Existe também uma versão norte-americana de 1981. Reza a lenda que essa história foi baseada em um incidente numa escola secundária na Califórnia em 1967. Está ficando interessante, né? A pergunta então muda: por que ainda não falei deste filme? Não sei. Só sei que me lembrei dele semana passada por conta de um comentário que ouvi. Depois falo disso. Voltemos ao filme.

A história é sobre o professor Rainer Wenger, que precisa ensinar a seus jovens alunos sobre autocracia. Rainer acredita que é uma boa opção explicar isso na prática. Normalmente, um professor de adolescentes não adotaria essa metodologia. Contudo, esse é um professor de história, fã de Ramones, que cantarola I don’t care about history. Nesse caso eu acredito. Ou seja, a versão alemã já sai ganhando logo nos primeiros minutos do filme quando apresenta nosso herói.

O filme traz uma angústia que aumenta à medida que o tempo passa. Você se envolve com os dramas de cada personagem e vê que não há muito o que fazer. Um rapaz que não tem apoio da família. Uma garota que clama por disciplina em casa, mas que na verdade quer apenas atenção. Para ser sincero, atenção é o que sempre queremos, em qualquer idade. O sentimento de insatisfação é o melhor terreno para se plantar governos autoritários e é isso que o filme esfrega na nossa cara. Jovens insatisfeitos viram joguetes do destino de qualquer manipulador convincente.

Alunos a Onda

A disciplina e a união que os movimentos fascistas trazem são sedutores. As coisas melhoram para todos os envolvidos. O sentimento de sociedade se torna realmente presente na vida de cada um. Tudo passa a funcionar melhor para quem está dentro do grupo. Entretanto, se você ficou de fora… Em um dado momento do filme Maquiavel é citado: os fins justificam os meios. Já sabemos que o preço é sempre alto demais.

Beleza, estamos falando de autocracia, poder ilimitado e absoluto. No cenário alemão, qual a primeira figura que vem em nossa cabeça? Isso mesmo, o mais odiado vilão da humanidade: senhor Hitler e seu partido nazista. Os alunos contra argumentam o professor. Isso nunca voltará a acontecer na famosa Deutschland. Já aprendemos a lição, né? Na versão americana, os alunos se perguntam como toda a sociedade não percebeu o que apenas 10% da população pretendia. Hora de revelar o comentário.

“Eu sou a favor de uma atitude radical do governo pra acabar com essa corrupção”. — Essa foi a frase que eu presenciei semana passada. — “Radical, como? Uma ditadura, por exemplo? ” “Não, ditadura não! ”— E se derem outro nome, será que essa pessoa não aceitaria? Será que nós todos não acreditaríamos?

A onda

A onda toca exatamente nesse ponto. Somos capazes de aceitar um regime autoritário? A história da humanidade diz que sim e que nem é tão complicado assim. Difícil é conseguir enxergar quando isso está acontecendo. Meu professor de história, o sábio Sebastião, dizia que uma mentira, por mais ridícula que fosse, seria aceita se o mentiroso trouxesse argumentos. Os argumentos podem ser tão ridículos quanto a mentira. Até hoje não consegui discordar do meu querido professor. Sem querer te desanimar, Sebastião dizia também que a mudança é sempre lenta. Acontece, mas é muito lenta.

No Brasil, todo dia descobrimos uma falcatrua nova dos nossos governantes. Políticos são acusados semanalmente. A Sensação de impunidade é grande. A crise econômica é uma realidade. Contudo, é tempo de vigilância. Não se pode baixar a guarda. Oportunistas não faltarão para nos manipular.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Além de gostar de escrever, Doug é pai, ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nessa ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

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