Chatô – O Rei do Brasil

Chatô-o-Rei-do-BrasilNós todos rimos juntos das piadas que fizeram sobre Guilherme Fontes e o seu infindável filme. No longa, Assis Chateaubriand é julgado por todos os crimes cometidos na vida. Ironicamente, na vida real, o ator e diretor Guilherme foi crucificado assim como seu personagem principal. Depois de completar 15 anos, Fontes entrega a obra e recebe o veredito do público e da crítica.

Em entrevista, o diretor defende a ideia de que precisamos de mais heróis. Quem são nossos heróis? A mídia “propõe” o Rei do Futebol, o Rei da Música e também o da finada Fórmula 1. Será que essa trinca realmente representa nosso povo? Eles servirão de símbolo para as gerações futuras. Pode parecer piegas, talvez seja, mas são nossos heróis que dão rumo a nossas vidas. Quando falo nossos heróis, me refiro ao professor que te ensinou que a leitura é a melhor forma de se encontrar. A amiga que te mostrou que dedicar a vida a sua paixão é motivo de orgulho. Ou então, ao velho amigo que disse que a sabedoria é algo que só aparece no corpo quando surgem os cabelos brancos.

Logo no início do filme lembrei de um dos melhores heróis que temos na literatura brasileira: João Grilo. Assis é julgado por todos os crimes cometidos na vida e, como João, precisa se defender e provar que o que fez era preciso. Fique tranquilo! Não contarei o final de nenhuma das histórias, apesar do Chatô ter falecido há mais 30 anos e o Auto passar todo domingo na Globo. Mesmo assim guardarei segredo. Uma coisa é certa, João Grilo e Assis seriam bons amigos se por acaso vivessem numa realidade paralela.

Assis-Chateaubriand1

Guilherme não comete o mesmo erro de Carla Camurati. Tudo bem que estamos falando de uma ficção, ou seja, não tem a mesma obrigação de um documentário. No entanto, tomou-se o cuidado para que não apenas os defeitos do personagem fossem ressaltados no filme do Chatô. Fugindo, desse jeito, da caricatura que Dom João IV se tornou depois do filme Carlota Joaquina. Concordo com Umberto Eco que através do livro O nome da Rosa cita o imortal Aristóteles: “O riso mata o temor e sem temor não pode haver fé…” Se apenas debocharmos dos nossos heróis nunca teremos fé em nada. Sobrará apenas esse sentimento de vira-lata que adoramos cultivar nos papos de boteco: “O Brasil não tem jeito, blá, blá, blá…”.

Vejo várias pessoas da minha geração cultuando figuras como Mark Zuckerberg ou Steve Jobs. Tudo bem, eles foram bem-sucedidos no que fizeram. Mas é preciso colocar o pé no chão. Zuckerberg e Jobs não pertencem a nossa realidade. Se for para buscar inspiração de uma chance ao magnata tupiniquim. Foi considerado o homem mais importante do Brasil durante os anos de 1930 a 1960. Valorizava uma coisa que ultimamente não sabemos muito bem aonde vai parar: cultura regional.

Marco Ricca deu vida ao herói e nos fez acreditar que o Cidadão Kane dos trópicos existiu e viveu dilemas que ainda vivemos. Assis apesar de chamar o amigo J.K. de Faraó Kubitschek, compartilhou o sonho faraônico do amigo: 26 jornais, 14 rádios, 4 revistas e 2 estações de TV, criação do Masp, e por aí vai… Uma curiosidade sobre o Masp. Foi a primeira que um monarca britânico pisou em solo brasileiro. Rainha Elizabeth II veio especialmente para a inauguração do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

Marco-Rica-Chatô

Enfim, Chatô – o rei do Brasil já pode ser estudado nas faculdades de Marketing como um case de sucesso. Dever ser o filme que mais ganhou mídia espontânea na história do cinema. Cerca de 20 anos falando bem e mal do diretor, da produção, do financiamento público. Com já sabemos a justiça é lenta, mas certeira. O veredito de Guilherme Fontes saiu e é positivo: absolvido e aclamado pelo público e crítica. Aproveite a liberdade que conquistamos e desfrute do filme.

 

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

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