Amélie Poulain

O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain

O Fabuloso destino de Amélie Poulain é um filme necessário. Sempre existirão os radicais livres que dirão: “Nossa, que filme chato”, “Dormi logo no início”, “Essa mulher fala olhando pra câmera” ou ainda “É pior que O Discurso do Rei”. Não deixe os coxinhas ou petralhas estragarem seu filme. Finja que não ouviu, ou melhor, assista escondido! Deixe a senhorita Poulain te ensinar a dar valor as miudezas da vida. Ajude ela a se vingar do cretino dono da quitanda. A buscar utilidade num gnomo de jardim. Ou quem sabe passear de lambreta sem capacete.


Talvez não se lembre, mas houve uma época que toda matéria feita para a TV sobre a França tinha a trilha sonora da Amélie. Provavelmente você, se ainda não assistiu ao filme, terá a impressão de que já ouviu as músicas em algum lugar. Depois de 2001, tudo relacionado a França vinha acompanhado de J’y Suis Jamais Alle. Passe a observar! Alguns canais ainda mantém a tradição.

Cafe des 2 Moulins
Café 2 Moinhos. Foto Franciane Lúcia

Dizem por aí que o filme, além de surreal, é gótico. Não sei se consigo enxergar isso. Jean-Pierre Jeunet (diretor) apesar de focar na cultura cotidiana francesa, apresenta uma história com tipos tão comuns ao nosso dia-a-dia que fica difícil descobrir onde está o “além do real”. Pai antissocial, senhora empreendedora, hipocondríaca, amante ciumento, artista fracassado, mendigo honrado e por aí vai… Talvez o fato da personagem principal ser uma sonhadora tenha dado a ideia de “surrealidade”… Não.

Sobre o outro estilo. Acho que confundiram melancólico com o gótico. O filme traz sim uma nostalgia. Uma saudade de um tempo que nunca aconteceu. Terminamos de assistir ao filme e temos essa sensação. Se eu, na minha humilde ignorância, precisasse definir o estilo de Amélie Poulain, em minha filmoteca, eu o colocaria na seção Bossa Nova – Anos 2000. “Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser” dava o Tom, o senhor Jobim. Combina ou não com o filme?

Seguindo o fluxo do devaneio do parágrafo anterior, prepara-te que agora tua cabeça explodirá, ou não. Vou te mostrar outra obra que dialoga perfeitamente com esse filme e eu só me dei conta agora. Preparado? Fabuloso rima com maravilhoso. E quem vive num mundo maravilhoso? Pois é. Amèlie é a nossa versão francesa e contemporânea de Alice. 48 horas depois do dia 29 de agosto (os filmes têm alguma coisa com essa linda data), o coelho leva Poulin até uma toca. Nessa história é a morte da Lady Di que faz o papel do coelho. Na toca, um buraco escondido no banheiro, existe um tesouro que só tem valor se for compartilhado com a pessoa certa, ou seja, o dono do tesouro. Curioso, né? Siga o coelho.

Ilustração John Tenniel

A personagem de Lewis Carroll se encontra perdida e pede ajuda ao Gato de Cheshire: “Não me importa muito para onde”. O Gato sorridente responde: “Então não importa que caminho tome”. Diferente da Alice, Amèlie sabia aonde queria chegar. Ela queria devolver aquele tesouro. Queria transformar o mundo a sua volta, contudo se não desse certo não tinha problema. A aventura já lhe bastava.

 

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

Um comentário em “Amélie Poulain

  1. Quando vi este filme pela primeira vez, me vi nele. Acho que fiz igual quando pequena e assisti umas 10 vezes a Pequena Sereia. Amèlie era eu e eu era ela, rs! Enquanto eu não conseguia entender o que eu era e por quais caminhos seguir, tentei relacionar a imaginação e o real até saber exatamente com qual realidade queria viver! Fui assim por anos e acho que me pego as vezes divagando. Vejo uma relação muito próxima com Alice, realmente. Suas colocações foram muito boas! Parabéns Doug!

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