1ª Bienal de Juiz de Fora

Sim, Os Mullets estão na 1ª Bienal de Juiz de Fora! Dividindo esta aventura e a prateleira temos grandes obras do Grupo Divulgação e os lindos trabalhos da Bodoque Artes & Ofícios. Ou seja, começamos em ótima companhia!

Os Mullets na 1ª Bienal de Juiz de Fora

 

Lá você também pode encontrar canecas exclusivas para a Bienal!

CAneca dos Mullets

 

2º dia

 

É sempre um prazer em receber e fazer novos amigos. Contamos com você lá! 😉 Continua…

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Pequeno Conto

Conto Pai e Filho

Pai e Filho

Cheguei cedo pra trabalhar, mas meu pai já estava lá. Cumprimentei e a mesma resposta recebi:

– Bom dia.

Não nos falamos mais. De longe eu o observei a manhã inteira. Sua atenção era toda da tela do computador. Nada de redes sociais ou jogos virtuais. Apenas escrevia. Quase na hora do almoço ele saiu para fumar. Dez minutos depois voltou com um copo descartável cheio de café. No início da semana lhe mostrei meu texto. Horas depois me devolveu o papel. Disse que gostou dos diálogos. Atendo o telefone que tocou e ele se vai.

Depois do almoço ele demora a aparecer. Pego seu chapéu e o imito. Passeio pelo escritório, mas todos fingem não me ver. Um cheiro de álcool se espalha pela sala. De volta, o homem liga para algumas pessoas pedindo prazo. Provavelmente queria sair cedo. Nosso amigo zomba do seu jeito engraçado de falar.

– Filho, o seu conto é uma… Bosta!

Nesse momento perco a noção do tempo. Evito pensar, mas não consigo. Ele pensou que foi eu quem zombou? É essa a opinião dele? Será que tem razão? Aposto que nem leu. Não quero mais saber. Ele já se foi.

Pego minhas chaves e cigarros e observo o pôr do sol pela janela. Outonos são lindos e melancólicos. Termino mais um conto. Nunca mais mostro pra ele.

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Esquerda e direita?

É que o anzol da direita, fez a esquerda virar peixe

Essa ilustração surgiu depois de escutar a música do Artista Criolo (Esquiva da esgrima). Ao procurar um pouco mais sobre sua vida lembrei de uma questão que me atormenta: — Esquerda e direita existem?

Cada dia que passa me sinto mais descrente. Escuto filósofos, sociólogos, historiadores, cientistas políticos, embusteiros, enfim, os que são pagos para pensar. Cada vez mais os vejo distantes da nossa realidade.

Kleber (nome de batismo de Criolo) fez o Ensino Médio com sua mãe. Seu irmão mais velho, Cleiton, ele fez pós-graduação também com a mãe. Não foi fácil para nenhum desses personagens de origem humilde num Brasil de 1980.

O conceito de esquerda e direita surgiu na revolução francesa para separar quem literalmente sentava à direita (clero e nobreza) e à esquerda (resto) do rei. Hoje não temos rei, o clero cada um tem o seu e a nobreza anda camuflada. Quando escuto alguém falando de Esquerda e de Direita eu lembro das novelas. Lá a ilusão de bem e mal é bem definida. Nas novelas ainda dá pra saber que o vilão será vilão até o fim e terá um julgamento justo por toda a maldade feita. Entretanto, quando nos deparamos com o real encontramos apenas briga pelo poder. Como consequência dessa briga encontramos milhões de mães sem o ensino médio e sem a força de vontade que a mãe do Kleber teve. Por centenas de motivos, infelizmente justificáveis, elas nunca terão uma formação fundamental.

Quem é o culpado pelo o que está acontecendo? A esquerda? A direita? Não dá para dividir em bem e mal. Não somos tão simples. Se fossemos, era bem mais fácil resolver esse problemão em que nos metemos.

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O Segredo dos Seus Olhos

 

O-segredo-dos-seus-olhos
Foto Divulgação

Não tive coragem de assistir ao remake hollywoodiano escrito por Billy Ray (Secret in Their Eyes). Já pelo trailer pude perceber que não dá. Acredito que se eu o assistir o encanto se perderá. Trocar a ditadura argentina pelo 11 de setembro? Oficiais de justiça dos anos 1970 por agentes do FBI dos anos 2000? Para mim isso não faz nenhum sentido. Querem contextualizar e tornar a leitura mais fácil? Faz o seguinte, dubla o filme. Aqui no Brasil já usamos a dublagem há tanto tempo. É muito mais barato e ainda dá emprego.

Imagina se resolvêssemos refazer todo sucesso mundial. Mentaliza o enredo: Tony Ramos no lugar do Ricardo Darín. O garoto Freeboi seria um detetive no Morro da Macaca. Pedro Cardoso (no estilo Agostinho Carrara) seria o Sandoval seu amigo de trabalho e frequentador do buteco/pastelaria Beiçola’s Bar. Como Irene teríamos Paola Oliveira, isso mesmo, aquela das cortinas. Os produtores ficariam Felizes para Sempre em deixá-la seminua mais uma vez. Para o Gomez, claro, Wagner Moura. Seu sucesso mundial ajudaria nas vendas. Não combina, né? Pois é, é isso que senti quando assisti ao trailer dos americanos. Nada contra os atores de Hollywood ou do Brasil, entretanto, não casa. Era mais honesto fazer outro filme.

Enfim, este texto já perdeu tempo demais com a refilmagem. Falemos do original. Antes de tudo é preciso dizer. Pablo Sandoval (interpretado por Guillermo Francella) é muito bom! Sim, é possível colocar simpatia, humildade, sabedoria, humor e coragem em um só personagem. Sem nenhum pingo de descrença você é capaz de dizer: — Acredito que exista um Sandoval por aí. Ouso a compará-lo ao grande Quixote. Um caçador de gigantes que no fundo sabe da existência dos moinhos, mas entende sua essência e não a nega. Ou seja, você já deve ter percebido que o frequentador do Robertinho, Senhor Pablo, é meu personagem preferido. Ricardo Darín como Benjamín Esposito e Soledad Villamil como Irene Hastings cumpriram seu papel sabiamente.

Gulliermo Francella
Foto Divulgação

El Secreto de Sus Ojos não é um filme policial comum que no início acontece um crime e em seguida o detetive precisa correr como o coelho da Alice para pegar o culpado. A trama é complexa. A cada flashback nos é revelado um pouco mais dos personagens. O crime inicial percorre toda a história e nos traz várias outras questões. Amor, alcoolismo, amizade, justiça, dor, paixão… Talvez este último seja a espinha do enredo. Nossas paixões são mutáveis? Às vezes, ingenuamente, achamos que sim. Os gregos diziam que nosso destino é tecido por três Moiras. Acho que elas não perdem tempo tecendo toda a nossa vida. Para agilizar o processo, já que tem muito destino pra costurar, elas tecem apenas a paixão de cada um. Esse tecido não dá para trocar, cortar ou refazer. Temos apenas que aceitá-lo. E a partir dele, deste tecido irretocável, sua vida será regida.

Não concordo mas entendo por que não falar de ditadura na versão Secret in Their Eyes. Os EUA nunca viveram uma ditadura. Será que eles entenderiam o que é essa ferida? Pensou o roteirista: — Poxa, então vamos falar do 11 de setembro, essa não cicatrizou para os norte-americanos! — Os próprios argentinos reconhecem que nunca esquecerão o que aconteceu lá. Quem sabe fosse melhor, não digo esquecer, mas não sofrer tanto. Assim como nosso corpo faz quando passamos por um trauma. A dor é tanta que a única saída que ele encontra é esconder aquela memória. Não que seja covardia ou falta de compaixão, no entanto, é preciso seguir em frente, e o filme aborda isso divinamente.

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Foto Divulgação

Juan José Campanella (diretor e escritor) e Eduardo Sascheri (escritor) nos presenteiam com um lindo trabalho, baseado no livro La Pregunta de Sus Ojos, do próprio Eduardo Sacheri. Em uma das cenas consegui me ver entrando na casa da minha família no interior de Minas, algumas paredes manchadas pelo tempo, a decoração dos anos 1970, a vizinhança tranquila, árvores dos dois lados da rua, um paraíso. Este prazer de se reencontrar nos filmes latinos é algo indescritível. É como viajar durante muitos dias e ao retornar a terra natal a cidade parece sorrir de volta. O poeta maior, Carlos Drummond, numa entrevista a Leda Nagle, explica sua recusa em voltar para sua terra natal. Aos 78 anos, retornar a Itabira seria como voltar para um passado morto, seus amigos não estariam mais ali, sua família já se foi. Assistir ao filme de Campanella é como bem diz o poeta itabirano: “…Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”

O segredo está nos olhos, mas é preciso ter atenção. Pode ser apenas um lampejo, algo bem corriqueiro. No entanto, pode ser admirado por qualquer um. Culpa, dor, paixão, amor… Basta olhar com cuidado àquela velha fotografia na parede.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

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Quebre a moto, ande a pé, mude

A moto quebrou semana passada. Tive que gastar um pouco mais do tênis que já estava surrado pelos anos (inclusive, ele deu sinais de que quer descanso). A antiga/nova paisagem me compensou e me fez esquecer o peso da motoca. Na verdade me fez lembrar dos muitos anos que passei por essa linha de trem: as moedas que colocávamos no trilho para o trem amassar (uma dica: cole elas com durex), o cãozinho do meu amigo que morreu ali, a primeira vez que andei de trem, as amoras (não tenho certeza, talvez ameixas) que comíamos sentados na estação. Nunca percebi como aquela linha é importante pra mim.

A caminhada tortuosa me gratificou com imagens e inspirações que nem imaginava que podia conseguir naquele dia. Um estudante com uma cabeça de urso foi uma delas. Talvez por influência inconsciente da fantástica HQ Sweet Tooth. O Quadrinho que conta a história de um futuro distópico no qual os humanos nascem com partes de outros animais. Apesar de triste, a obra traz a importância da mudança. Mudar é tão vital quanto a água ou o ar.

Desenho daquele dia

Lembrei do polêmico poema Mude. Polêmico por sua autoria, pois alguns ainda acham que é da Senhora Lispector, já outros acreditam que é do Mago Paulo Coelho. Contudo, Edson Marques levou essa. Como metido a Doutor Sabe Tudo que sou, eu receito este poema de 3 em 3 meses a todos que se acomodam com a rotina da vida. Mude, quebre a moto, o carro, pegue uma carona, compre um livro dos Mullets, ande a pé, ponha uma cabeça de urso, faça alguma coisa! Só não morra na rotina. Não esqueça das linhas que te ajudaram a chegar até este post.

Enfim, o poema do Edson define bem melhor que minhas palavras soltas, ainda mais, na belíssima interpretação de Abujamra, lamentavelmente, levado pelo ceifador este ano.

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