Trainspotting

Trainspotting

A trilha é muito boa, não me venha com preconceito, dê uma chance aos anos noventa: YouTube.

A medida que vamos ficando velhos o medo vai aumentando. Uma criança de 11 anos entrando na piscina é bem diferente que um senhor de 50 anos. A criança mergulhará de cabeça, dará um salto mortal ou pulará como uma bala de canhão. O senhor usará a escadinha. Pouco antes de entrar, com a pontinha do dedão, conferirá se a água está fria. Trainspotting é uma criança se jogando de cabeça sem se importar se a piscina tem água ou não.

O filme pega sua mão a força e te leva para mergulhar em toda a lama que é a vida de um viciado, no caso, os viciados em heroína dos anos 1990, na Escócia. Pode parecer distante da nossa realidade, mas no fundo você sabe que não é. Todos nós conhecemos um caso de alguém próximo que está ou nunca saiu dessa lama. Mark Renton (Ewan McGregor) nos apresenta a saga de um dependente que resolve ficar careta.

A metáfora da mudança serve para outros estilos de vida. Os jovens talvez, obviamente, pela pouca idade, com menos frequência, mas os mais velhos, com certeza, já se depararam em algum momento da vida que a mudança era a única saída. Contudo, faltou coragem, oportunidade ou mesmo sorte. Nossa zona de conforto é viciante. Ela te dá prazer, carinho e certezas. Mudar é dolorido. Nos  primeiros dias você sentirá os efeitos da abstinência. É preciso se trancar num quarto e nem mesmo sentir o cheiro dos antigos amigos. A dor virá e talvez passará.

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Dor e tristeza estão fora de moda. Manuais de como ser feliz lideram as listas dos mais vendidos. Não se pode mais chorar! Os momentos tristes precisam ser curados a todo custo.

“…E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!”.

A beleza deste poema (Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca) é de doer a alma. O choro virá belo e calmo, brotará dentro dela e lá permanecerá. Ninguém saberá que a angústia existe. É de uma solidão…  Florbela Espanca: poetisa, bastarda, marginal, viveu nos anos 1920, em Portugal. Ela tinha todo o direito de ficar triste. Se a nossa atual ditadura da felicidade fosse aceita por ela essa obra existiria? Provavelmente não.

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Estamos cercados de escolhas, uma vida segura, carro, TV grande, casa ou não para tudo isso. É possível escolher qualquer coisa, no entanto, é preciso arcar com as consequências. Se eu quiser muito trabalho e uma conta bancária gorda verei pouco minha família. Se eu quiser drogas e prazer a todo instante eu precisarei abdicar da família, amigos e saúde. Ou seja, a boa e velha frase, não se pode ter tudo.

Voltando a bela metáfora da mudança. Quando se está no fundo do poço, como bem mostra Trainspotting, é preciso ter o coração jovem e não se importar se a piscina tem água. Mergulhe de cabeça. Mudar é sempre preciso.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

2 comentários em “Trainspotting

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