Amy e O Chamado do Cuco

Poster Documentário Amy 2015

Quem é a garota atrás do nome? Eu achava que sabia: cantora jovem, uma voz maravilhosa, belas interpretações, judia e viciada. Ou seja, mais uma vez eu sendo ignorante. Não sabia nem que ela compunha as próprias canções. Antes de dar play, uma tristeza segura nosso dedo. Não vou mentir, depois a tristeza só piora. Entretanto, coragem! É preciso enfrentar a história.

Em cada data que aparecia eu tentava lembrar onde eu estava na época. Quando ela cantava “Parabéns para você”, aos 14 anos como uma diva do Jaz, eu aqui em “Xis de fora”, aos 13 roubava jabuticaba do vizinho. No seu show em 2003 eu acabava de entrar na faculdade. As oportunidades que desperdicei. Quem fiz sofrer. As escolhas que acertei. O foco do documentário, evidentemente, está na Amy, contudo, você fica imaginando como foi sua história. E a pergunta é inevitável: que diabos estou fazendo com minha vida? Estou no caminho certo? É provável que sim… Como disse Sartre e o Google, somos produto do meio. Não existem escolhas erradas. Existem escolhas prováveis de acordo com sua origem. É uma roupa nova que deram para o bom e velho destino. Aceite.

Toda música que toca no filme provoca um sentimento de perda. Como deixaram isso acontecer com ela? Como DEIXAMOS? “Mas ela morava na Inglaterra! Estamos aqui nos trópicos. Dá um tempo! ” — Você provavelmente dirá isso. — Contudo, acho que de alguma forma a culpa é compartilhada. Sua decadência se tornou um produto e nós o consumimos de bom grado. Isso não há como negar.

O-Chamado do Cuco capa do Livro

Ao escutar a sinopse do filme, na mesma hora lembrei do livro da J.K. Rolling escrito sob o pseudônimo de Robert Galbraith: O chamado do Cuco (2013 – Ed. Rocco). O livro conta a história de uma modelo Inglesa muito famosa que se matou. O detetive Cormoron Strike é contratado para descobrir se realmente foi suicídio. Rollling retrata bem o que é a vida das celebridades britânicas. As perseguições por fotógrafos, festas luxuosas, drogas e ligações ilícitas.

Tanto no livro de Rolling quanto no filme de Asif Kapadia vemos como o famoso se torna refém do seu trabalho. Winehouse confessa em determinado momento que sonhava poder apenas andar na rua sem ser incomodada. O artista se torna um objeto de desejo e simplesmente não se respeita mais a pessoa. É o preço que ela deve pagar por ser uma figura pública. Em alguns episódios de Black Mirror é tratado esse tema. Lá podemos ver como esse insano desejo nos passa desapercebido. É tão comum hoje em dia que talvez seja preciso alguns bons anos parar podermos analisar o que está acontecendo. Às vezes, tento imaginar o que diria Machado de Assis se fosse sequestrado e trazido para nosso tempo. No mínimo diria que Capitu com os lindos olhos de ressaca era uma Santa e nunca teria coragem de mandar “Nudes”, nem mesmo para o Bentinho.

LEIA TAMBÉM SOBRE BLACK MIRROR

No caso de Amy Winehouse, Maquiavel estava errado. Não deixe os inimigos tão próximos. É preciso se proteger de boas companhias. O lixo deve ficar longe de casa até que o lixeiro venha buscar. Caso contrário você se acostuma com o cheiro dele e não se dá conta que aquilo faz mal. Da forma que o documentário é montado é possível separar o lixo do restante. É claro, que ele não dá conta de toda a vida da cantora e talvez nem esteja certo em todas as opiniões. Entretanto, o acervo é muito grande, várias fotos e gravações. A escolha de colocar as vozes de cada personagem em Off, dá mais veracidade ao trabalho. É possível concluir através das imagens se aquilo que o produtor disse faz sentido ou não, por exemplo.

Essa é outra semelhança com o livro O chamado do Cuco. O detetive Strike precisou colher o depoimento de diversas pessoas para poder juntar a história e decidir quem era o culpado ou se realmente teve um culpado. O documentário de Amy nos faz a mesma pergunta depois de apresentar todos os fatos e depoimentos. Quem foi o culpado? Existiu um crime?

 

Documentário Amy Winehouse

 

Evidentemente, depois que me tornei pai, as histórias que envolvem filhos me seduzem mais. Apesar do caso de Amy parecer muito diferente da nossa realidade tupiniquim, mesmo assim, ele nos faz refletir. Quais são nossas responsabilidades? Estamos preparados? Seu filho, sobrinho, vizinho ou amigo em algum momento precisará de você, da sua experiência, enfim, da sua ajuda. Será que somos capazes de ajudar? Recentemente um experimento com crianças de 13 meses provou que somos naturalmente solidários. Ajudamos sem necessitar de nenhum estímulo para isso. Será que conseguimos ser assim até o último mês de vida?

 

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

6 comentários em “Amy e O Chamado do Cuco

  1. Adorei o texto! Não sei porque, mas acho que você já estava escrevendo este artigo durante nossa conversa de grupo depois do almoço rs. Parabénss Douglas!

  2. Assisti Amy e fiquei me sentindo muito triste. Ainda não li O chamado do cuco, mas quando ler vou tentar ver as semelhanças entre as duas obras; claro que sabendo que estão mais nas entrelinhas que qualquer outra coisa.

    Muito legal o texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *