Esquerda e direita?

É que o anzol da direita, fez a esquerda virar peixe

Essa ilustração surgiu depois de escutar a música do Artista Criolo (Esquiva da esgrima). Ao procurar um pouco mais sobre sua vida lembrei de uma questão que me atormenta: — Esquerda e direita existem?

Cada dia que passa me sinto mais descrente. Escuto filósofos, sociólogos, historiadores, cientistas políticos, embusteiros, enfim, os que são pagos para pensar. Cada vez mais os vejo distantes da nossa realidade.

Kleber (nome de batismo de Criolo) fez o Ensino Médio com sua mãe. Seu irmão mais velho, Cleiton, ele fez pós-graduação também com a mãe. Não foi fácil para nenhum desses personagens de origem humilde num Brasil de 1980.

O conceito de esquerda e direita surgiu na revolução francesa para separar quem literalmente sentava à direita (clero e nobreza) e à esquerda (resto) do rei. Hoje não temos rei, o clero cada um tem o seu e a nobreza anda camuflada. Quando escuto alguém falando de Esquerda e de Direita eu lembro das novelas. Lá a ilusão de bem e mal é bem definida. Nas novelas ainda dá pra saber que o vilão será vilão até o fim e terá um julgamento justo por toda a maldade feita. Entretanto, quando nos deparamos com o real encontramos apenas briga pelo poder. Como consequência dessa briga encontramos milhões de mães sem o ensino médio e sem a força de vontade que a mãe do Kleber teve. Por centenas de motivos, infelizmente justificáveis, elas nunca terão uma formação fundamental.

Quem é o culpado pelo o que está acontecendo? A esquerda? A direita? Não dá para dividir em bem e mal. Não somos tão simples. Se fossemos, era bem mais fácil resolver esse problemão em que nos metemos.

Leia Mais

O iluminado – Likes, Candy Crush e Chacretes. Impossível não procrastinar

O iluminado

 

Além da identificação que tenho com a calvície do Jack Nickson, O Iluminado me chama atenção por tocar num tema que me instiga: a solidão. Às vezes desejamos ficar sozinhos. Na verdade, precisamos de um tempo para refletirmos sobre nossa vida. Ainda mais nessa correria de redes sociais, trabalho e estudo que nós, os ditos humanos urbanos, nos encontramos. Contudo, até que ponto somos capazes de aguentar a solidão? Ora, somos seres sociais! (Em essência pelo menos). Outro dia, nas minhas buscas por quadrinhos em bancas de jornal, eu encontrei o Francês, um fantástico personagem perdido na HQ do grande Tex Willer (O herói/“semideus”/ranger/cowboy americano). O Francês se dizia enojado pela humanidade e decidiu viver sozinho na floresta. Caçava sua própria comida, fugia dos inimigos, vivia numa caverna e nunca dava like nas fotos dos amigos.

Um problema que o Francês não enfrentava, mas que eu e o Jack conhecemos bem é a tal da Procrastinação. Para o personagem do Nickson a tentação apareceu de várias maneiras e resistir a elas é algo extremamente difícil. Como manter o foco se o mundo está te oferecendo o Candy Crush? Doces balinhas que se colocadas na ordem certa te darão uma linda explosão de recompensa chamada Sweet ou Delicius. Como recusar ao Delicius que a vida te oferece e encarar amargo labor do dia a dia?

 

O iluminado Jack

 

Jack é maluco ou não? São fantasmas ou apenas imaginação? Tudo bem que a esposa interpretada, perfeitamente, diga-se de ligeirinho, pela Shelley Duvall nos leva a crer que algo de satânico está rondando naquele hotel. No entanto, nunca saberemos. Na verdade, nem devemos saber. Existem coisas que precisam ser omitidas para o nosso bem e o da boa história. Assim como o sentido da vida, o verdadeiro significado dos olhos de ressaca de Capitolina Santiago ou as pirâmides do Egito. Não devemos saber de tudo. Um pouco de mistério faz bem à sedução. Fica a dica para as Chacretes turbinadas contemporâneas.

Citei Machado de Assis e por falar em Machado (“ótimo gancho”), nada mais aterrorizante que machadadas numa porta. Você tenta imaginar como se defender de um golpe desse e logo conclui que não tem jeito. Parar com a mão não dá, usar uma cadeira, em dois golpes a cadeira se foi. Pensa em fugir, mas se for para a neve a morte também te espera por lá. Acredito que esse seja um dos pontos mais fortes do filme. The Shining não entrega tudo. Ele te deixa imaginar, e nada mais aterrorizante que nossa imaginação. Antes de lançar o filme, ainda no trailer, Stanley Kubrick produz um de arrepiar com apenas uma imagem estática do salão do hotel sendo inundado por uma pororoca de sangue. Pronto, acabou o vídeo. Claro que você imagina o pior. Unido a isso a nossa curiosidade pelo mórbido, público garantido.

 

O iluminado Jack Party

 

O iluminado é uma obra aberta. Interpretações diversas estão disponíveis. Basta escolher na prateleira. Apesar de Stephen King não ter aprovado a adaptação do Kubrick, o filme foi sucesso de público e mais a frente, também sucesso de crítica, considerado hoje segundo melhor filme do gênero, perdendo a medalha de ouro apenas para Psicose. Assim como Psicose, The Shining não é um filme comum de terror e merece ser assistido até mesmo por quem teme este gênero.

 

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

Leia Mais

Divertidamente

Tristez-Medo-Raiva-Medo-Nojo-Alegria-Divertidamente

Trilha no Youtube!

Se este filme tivesse sido lançado nos anos 1980, Lagoa Azul teria sérios problemas para manter o título de campeão da Sessão da Tarde. A mente humana sempre foi e, provavelmente, sempre será um mistério e, talvez por isso, motivo do nosso desejo. Pete Docter e Ronnie Del Carmen (diretores) trouxeram uma sensacional metáfora para tentar explicar como este emaranhado de sentimentos e memórias funciona. Uma mesa de comando é dividida pela Tristeza, Raiva, Medo, Nojo e Alegria. Estamos dentro da cabeça de Riley, uma pré-adolescente que se muda para San Francisco e se vê em conflito com suas emoções.

Esta história é a prova cinematográfica de que pessoas que são extremamente alegres são proporcionalmente chatas. Imagine um mundo sem a tristeza, a raiva, o medo ou até mesmo o nojo. Então você terá um mundo sem os quadros do Van Gogh, sem Psicose de Hitchcock, sem Frankenstein de Mary Shelley ou sem Metamorfose de Franz Kafka. Andemos de patinete nos campos verdes dos Teletubies e ao fundo escutemos os Conselhos Eternos narrados pelo Cid Moreria. Pois é, o Capiroto deve ter pensando neste cenário também quando criou o lar dele.

Tristeza Divertidamente

Caso não tenha assistido, se prepare! Você chorará, a não ser que seja alguém desprovido de sentimento algum, ou seja, procure ajuda. Mas com certeza você chorará! Por dentro também conta. A lágrima interna, aquela que ninguém vê, sabe? Esta também é considerada choro. No meio do filme você lembrará dos momentos mais tristes da sua infância, e claro, foram vários. Quando você e seus amigos tentaram roubar Coca-Cola do vizinho, mas desistiram no meio do caminho porque a vizinha fofoqueira chamou a polícia. Ou então, aquela vez que foram pegar jabuticaba no museu, mas tiveram que fugir porque tinha um tarado escondido. Ou quando mentiu para alugar uma fita das Tartarugas Ninjas. Disse para os pais que não haveria aula no dia seguinte e se arrependeu profundamente no finalzinho da noite…. Quer dizer, não necessariamente estas lembranças, mas algumas parecidas em que a alegria, a raiva, o medo, o nojo, sobretudo a tristeza serviu para você crescer.

Dentre outras coisas, o filme trata das memórias que são esquecidas. Confesso que isso me atormenta. Sempre quis poder lembrar de tudo e invejo abertamente (sem nenhum orgulho disso) quem tem uma grande memória. Um dos meus medos maiores é ter Alzheimer, ou alguma outra doença que leve ao esquecimento. Ao ver todas as memórias jogadas fora da mente de Riley me deu um aperto na alma. Queria poder salvar tudo. Sei que você dirá, mas é preciso seguir em frente, não dá pra guardar tudo que acontece em nossa vida, precisamos deixar de lado algumas coisas e continuar o caminho. Tá bom, mas no dia que pudermos guardar me conta aí se você não vai querer ter um HD blindado protegendo suas férias inesquecíveis em Londres, seu “sim” no casamento ou seus primeiros passos. Fala aí, “politicamente legal”!

inside-out-bing-bong-memory-dump

Além de ingrato, como bem disse Maquiavel, o ser humano também é volátil. Agimos de acordo com nosso meio. Se alguém tropeça e machuca o dedão, a raiva surge e com ela a tristeza. Mas não dá pra ficar triste e nervoso o tempo todo. Colocamos um curativo e ficamos mais atentos para não tropeçar novamente. É verdade que a atenção não dura mais que um quarteirão e se outra pedra estiver no caminho adeus dedão. E por aí vamos.

Ps.: Chorar balas é genial.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

Leia Mais

Trainspotting

Trainspotting

A trilha é muito boa, não me venha com preconceito, dê uma chance aos anos noventa: YouTube.

A medida que vamos ficando velhos o medo vai aumentando. Uma criança de 11 anos entrando na piscina é bem diferente que um senhor de 50 anos. A criança mergulhará de cabeça, dará um salto mortal ou pulará como uma bala de canhão. O senhor usará a escadinha. Pouco antes de entrar, com a pontinha do dedão, conferirá se a água está fria. Trainspotting é uma criança se jogando de cabeça sem se importar se a piscina tem água ou não.

O filme pega sua mão a força e te leva para mergulhar em toda a lama que é a vida de um viciado, no caso, os viciados em heroína dos anos 1990, na Escócia. Pode parecer distante da nossa realidade, mas no fundo você sabe que não é. Todos nós conhecemos um caso de alguém próximo que está ou nunca saiu dessa lama. Mark Renton (Ewan McGregor) nos apresenta a saga de um dependente que resolve ficar careta.

A metáfora da mudança serve para outros estilos de vida. Os jovens talvez, obviamente, pela pouca idade, com menos frequência, mas os mais velhos, com certeza, já se depararam em algum momento da vida que a mudança era a única saída. Contudo, faltou coragem, oportunidade ou mesmo sorte. Nossa zona de conforto é viciante. Ela te dá prazer, carinho e certezas. Mudar é dolorido. Nos  primeiros dias você sentirá os efeitos da abstinência. É preciso se trancar num quarto e nem mesmo sentir o cheiro dos antigos amigos. A dor virá e talvez passará.

Trainspotting

Dor e tristeza estão fora de moda. Manuais de como ser feliz lideram as listas dos mais vendidos. Não se pode mais chorar! Os momentos tristes precisam ser curados a todo custo.

“…E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!”.

A beleza deste poema (Lágrimas Ocultas – Florbela Espanca) é de doer a alma. O choro virá belo e calmo, brotará dentro dela e lá permanecerá. Ninguém saberá que a angústia existe. É de uma solidão…  Florbela Espanca: poetisa, bastarda, marginal, viveu nos anos 1920, em Portugal. Ela tinha todo o direito de ficar triste. Se a nossa atual ditadura da felicidade fosse aceita por ela essa obra existiria? Provavelmente não.

Trainspotting

Estamos cercados de escolhas, uma vida segura, carro, TV grande, casa ou não para tudo isso. É possível escolher qualquer coisa, no entanto, é preciso arcar com as consequências. Se eu quiser muito trabalho e uma conta bancária gorda verei pouco minha família. Se eu quiser drogas e prazer a todo instante eu precisarei abdicar da família, amigos e saúde. Ou seja, a boa e velha frase, não se pode ter tudo.

Voltando a bela metáfora da mudança. Quando se está no fundo do poço, como bem mostra Trainspotting, é preciso ter o coração jovem e não se importar se a piscina tem água. Mergulhe de cabeça. Mudar é sempre preciso.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

Leia Mais

O Segredo dos Seus Olhos

 

O-segredo-dos-seus-olhos
Foto Divulgação

Não tive coragem de assistir ao remake hollywoodiano escrito por Billy Ray (Secret in Their Eyes). Já pelo trailer pude perceber que não dá. Acredito que se eu o assistir o encanto se perderá. Trocar a ditadura argentina pelo 11 de setembro? Oficiais de justiça dos anos 1970 por agentes do FBI dos anos 2000? Para mim isso não faz nenhum sentido. Querem contextualizar e tornar a leitura mais fácil? Faz o seguinte, dubla o filme. Aqui no Brasil já usamos a dublagem há tanto tempo. É muito mais barato e ainda dá emprego.

Imagina se resolvêssemos refazer todo sucesso mundial. Mentaliza o enredo: Tony Ramos no lugar do Ricardo Darín. O garoto Freeboi seria um detetive no Morro da Macaca. Pedro Cardoso (no estilo Agostinho Carrara) seria o Sandoval seu amigo de trabalho e frequentador do buteco/pastelaria Beiçola’s Bar. Como Irene teríamos Paola Oliveira, isso mesmo, aquela das cortinas. Os produtores ficariam Felizes para Sempre em deixá-la seminua mais uma vez. Para o Gomez, claro, Wagner Moura. Seu sucesso mundial ajudaria nas vendas. Não combina, né? Pois é, é isso que senti quando assisti ao trailer dos americanos. Nada contra os atores de Hollywood ou do Brasil, entretanto, não casa. Era mais honesto fazer outro filme.

Enfim, este texto já perdeu tempo demais com a refilmagem. Falemos do original. Antes de tudo é preciso dizer. Pablo Sandoval (interpretado por Guillermo Francella) é muito bom! Sim, é possível colocar simpatia, humildade, sabedoria, humor e coragem em um só personagem. Sem nenhum pingo de descrença você é capaz de dizer: — Acredito que exista um Sandoval por aí. Ouso a compará-lo ao grande Quixote. Um caçador de gigantes que no fundo sabe da existência dos moinhos, mas entende sua essência e não a nega. Ou seja, você já deve ter percebido que o frequentador do Robertinho, Senhor Pablo, é meu personagem preferido. Ricardo Darín como Benjamín Esposito e Soledad Villamil como Irene Hastings cumpriram seu papel sabiamente.

Gulliermo Francella
Foto Divulgação

El Secreto de Sus Ojos não é um filme policial comum que no início acontece um crime e em seguida o detetive precisa correr como o coelho da Alice para pegar o culpado. A trama é complexa. A cada flashback nos é revelado um pouco mais dos personagens. O crime inicial percorre toda a história e nos traz várias outras questões. Amor, alcoolismo, amizade, justiça, dor, paixão… Talvez este último seja a espinha do enredo. Nossas paixões são mutáveis? Às vezes, ingenuamente, achamos que sim. Os gregos diziam que nosso destino é tecido por três Moiras. Acho que elas não perdem tempo tecendo toda a nossa vida. Para agilizar o processo, já que tem muito destino pra costurar, elas tecem apenas a paixão de cada um. Esse tecido não dá para trocar, cortar ou refazer. Temos apenas que aceitá-lo. E a partir dele, deste tecido irretocável, sua vida será regida.

Não concordo mas entendo por que não falar de ditadura na versão Secret in Their Eyes. Os EUA nunca viveram uma ditadura. Será que eles entenderiam o que é essa ferida? Pensou o roteirista: — Poxa, então vamos falar do 11 de setembro, essa não cicatrizou para os norte-americanos! — Os próprios argentinos reconhecem que nunca esquecerão o que aconteceu lá. Quem sabe fosse melhor, não digo esquecer, mas não sofrer tanto. Assim como nosso corpo faz quando passamos por um trauma. A dor é tanta que a única saída que ele encontra é esconder aquela memória. Não que seja covardia ou falta de compaixão, no entanto, é preciso seguir em frente, e o filme aborda isso divinamente.

O-segredo-dos-seus-olhos-Estação
Foto Divulgação

Juan José Campanella (diretor e escritor) e Eduardo Sascheri (escritor) nos presenteiam com um lindo trabalho, baseado no livro La Pregunta de Sus Ojos, do próprio Eduardo Sacheri. Em uma das cenas consegui me ver entrando na casa da minha família no interior de Minas, algumas paredes manchadas pelo tempo, a decoração dos anos 1970, a vizinhança tranquila, árvores dos dois lados da rua, um paraíso. Este prazer de se reencontrar nos filmes latinos é algo indescritível. É como viajar durante muitos dias e ao retornar a terra natal a cidade parece sorrir de volta. O poeta maior, Carlos Drummond, numa entrevista a Leda Nagle, explica sua recusa em voltar para sua terra natal. Aos 78 anos, retornar a Itabira seria como voltar para um passado morto, seus amigos não estariam mais ali, sua família já se foi. Assistir ao filme de Campanella é como bem diz o poeta itabirano: “…Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”

O segredo está nos olhos, mas é preciso ter atenção. Pode ser apenas um lampejo, algo bem corriqueiro. No entanto, pode ser admirado por qualquer um. Culpa, dor, paixão, amor… Basta olhar com cuidado àquela velha fotografia na parede.

Douglas Zimmermann

Douglas Zimmermann

Natural do litoral mineiro (Juiz de Fora). Doug é artista, pai,  ilustrador, cinéfilo, quadrinista e designer, não necessariamente nesta ordem.

Alguns dos seus outros trabalhos: Site

 

Leia Mais